OUÇA A SI

o fato que vou aqui narrar, ocorreu no dia 22 de agosto, cerca de quatorze dias atrás, se só estou narrando-o agora, é para que a distância possa me dar um pouco mais de segurança naquilo que vou aqui narrar, pois até para mim é difícil acreditar. foi um sábado frio e com vento, depois de quase uma semana debaixo de chuva, naquela noite o céu estava incrivelmente limpo, sem uma nuvem e nem lua por perto para ofuscar o brilho das estrelas que costumam salpicar o céu noturno de nossa região, pensei: ótimo, vou passar na casa de certo amigo, que possui um telescópio, e convidá-lo a subir no topo do bim – um morro, em torno do qual cresceu a cidade de santantoniodaplatina – ele já havia me cobrado fazer este programa qualquer noite dessas.  a ocasião estava boa, peguei lanterna, um planisfério, máquina fotográfica, uma garrafa de vinho e um copo de inox, acomodei-os todos num embornal. tratei de me proteger do vento que certamente estaria, e de fato estava, soprando forte lá em cima: jaqueta de couro, cachecol e um gorro. é claro que entre perceber a boa ocasião até o momento em que eu saí de casa para a empreitada, levou pouco mais de duas horas, afinal tinha também outros assuntos a resolver, de modos que na hora em que saí, o céu apresentava algumas poucas nuvens esparsas, não o suficiente para atrapalhar. tudo bem, porém outro acontecimento iria mudar os planos naquela noite: o tal amigo não estava em casa, provavelmente em sua cidade natal para aproveitar o fim de semana. bom, pensei eu, já que o circo está armado o jeito é improvisar: notei que o material que carregava também era mais que suficiente para empreender uma caçada fotográfica (nenhum animal é morto, apenas eternizado numa foto, a emoção é muito maior pois a intenção é que nenhum saia ferido deste encontro, e é muito mais desafiador encontrar-se com um animal selvagem e deixá-lo vivo), fazia tempo não praticava a caçada, e assim foi. e fui só, sem outra testemunha, para o morro do bim, o destino continuava o mesmo só que em outra coordenada, pois não se buscava o céu mas sim a mata. instalei-me num local já conhecido, onde certa vez flagrei um porco-espinho. julguei que desta vez poderia dar sorte novamente. cheguei com um pouco de suor, afinal havia me preparado para o vento, e na mata o vento não penetra muito além das copas das árvores, de modo que assim que esvaziei o embornal de alguns pertences, coloquei ali dentro a toca e o cachecol, e o pendurei num galho que embora podre, suportou sem dar sinal de fraqueza o embornal e seu conteúdo mais leve. abri o vinho, meiei o copo, tampei-o novamente e apaguei a luz da lanterna. é mais fácil perceber a presença de animais na escuridão, pois neste caso tem-se uma visão ampla e fica fácil perceber silhuetas se movimentando, com a lanterna você só enxerga aquilo que ela está iluminando, por isso só se deve usá-la depois de localizado o animal. para passar o tempo, levei um gravador onde tenho por costume registrar depoimentos inconfessávei e que espero nunca vir a ser ouvido por ouvidos humanos normais pois é muito ridículo. na verdade se estou cometendo esta pequena confissão, é para que fique claro que não pretendo e nem faltarei com a verdade em nenhuma linha desta narrativa.

não sei dizer quanto tempo havia se passado até que deu-se o primeiro incidente curioso da noite. a primeira rodada de vinha havia se acabado, também ja fizera algumas gravações. estava justamente pensando em colocar mais um pouco de vinho, pois o solilóquio deixara-me com a boca seca, quando notei certo movimento. apurei a vista e o movimento parou. esperei mais alguns instantes antes de confirmar com a lanterna que não havia nada ali, provavelmente alguma folha se mavimentando com uma corrente de brisa tenha me confundido. fiquei um bom tempo em silêncio, e notei que estranhamente estava silencioso por ali também, até um grilinho constante e com muitos parentes tagarelas estavam quietos. o silêncio foi quebrado pelo barulho de uma queda a três passos de mim, onde estava o embornal. fora ele quem caiu, ou melhor, o galho onde estava quebrou-se, foi o que percebi quando liguei a lanterna para esclarecer o ocorrido. pendureio novamente no que restara do galho e voltei para o meu posto, lembrei-me pretendia pegar mais vinho e recarreguei o copo com apenas mais dois dedos. coloquei o gravador no modo música e dei um play para ouvir, sem fones, “miranda that ghost just isnt holy anymore” da banda the mars volta, enquanto bebericava. esta música tem mais de quinze minutos e ao final dela, e do vinho, senti a temperatura um pouco mais baixa, lanterna na mão, fui ao embornal pegar o gorro e o cachecol e aí deu-se o ocorrido: peguei os dois juntos, e para minha surpresa, o cachecol estava com um nó em uma das pontas. pensei: mas não é possível. isto só pode ser coisa de saci! o único ser que conheço que tem entre suas qualidades, a de dar nós em roupas no varal, crinas e rabos de cavalos, a agora no meu cachecol! pus-me a chamá-lo, convidei-o para tomar um vinho comigo, ofereci-lhe tabaco, disse que o nó havia ficado bom, e outras sandices, claro que tudo de lanterna apagada para não espantá-lo, mas não obtive resposta alguma. infelizmente não pude fotografá-lo, mas fiz no local uma foto do cachecol com o no em sua ponta e também no ambiente em que ele foi produzido. graças a foto, que vem registrada a hora em que foi feita, pode-se dizer que o ocorrido deu-se por volta de 22:20 hs, se retroagir até ao momento em que o embornal caiu. as fotos estão aí embaixo. e o cachecol está guardado, não desfiz o nó. usarei outro.

em termos de causalidade, a única ligação lógica, coerente, embora fantasiosa, a causa mais evidente  é o saci. por outro lado, é claro que tudo isso pode ter sido somente uma mera casualidade. fortuitamente o nó pode ter se consumado no momento em que puxei o conjunto toca/cachecol e por conta de uma disposição propícia do cachecol para que o mesmo se desse, o nó se fez. puro acaso. bom, se for mesmo a segunda opção, ao menos ficou uma boa história para se contar.

o nó do saci

o nó do saci

4 Comentários

Arquivado em FATOS, FOTOS

4 respostas para OUÇA A SI

  1. Ricardo Vilela

    Muito louca essa história Gian. Eu acho que foi o Saci, o maroto. Só pode.

  2. xinnoi

    muito bom .belle nó.

  3. Pedrinho Orlandini

    Caralho, que história boa….

    Saci….é fato bichão ele existe…..

    Sensacional!

    Abraços!

  4. Iauch

    Humm…

    Pela configuração do nó acredito que tenha sido uma sacia-do-morro.
    A boa notícia é que como você não desfez o nó esse mesmo cachecol pode ser utilizado para atrair um saci macho, mas para tanto será necessário o porte de uma garrafa de pinga de alambique (aberta é claro).

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