delovino trazia de nascença um defeito que ele mesmo nunca soube possuir, era dalsônico, uma espécie de daltônico só que com som. ele não percebia o lá e o mi, para ele era só existiam cinco notas. o lá ele ouvia como fá e o mi como si. talvez não fosse grande problema se ele não insistisse em ser músico. sempre tocou de ouvido e com o tempo seu senso de ritmo e coordenação motora foram piorando até que foi abandonado pelos amigos, já não aguentavam mais ouví-lo tocar e cantar suas letras quilométricas. não demorou muito para que sua família o expulsasse de casa, foi morar no coreto da praça, lá ganhou fama e com ela veio a expulsão da cidade. incompreendido, resolveu que iria viver seu exílio na floresta. caminhou até encontrar um lugar bucólico e inspirador, onde sentou-se, tirou o violão e começou a dedilhar algumas cordas. de repente percebeu que enquanto tocava havia ficado rodeado de animais dos mais variados tamanhos e tipos, sentia-se numa cena de uaudisnei. com um sorriso, acendeu-se uma esperança nele e com ela, a decisão de que dali em diante tocaria apenas para os animais. teria sido feliz para sempre com sua decisão se não tivesse sido pisoteado até a morte pelos animais assim que começou a cantar.